Muitchareia
Um passeio pelo Rio São Francisco O vapor já não navega, e o estado do São Salvador não deixa dúvidas. Carcomido, enferrujado, ele jaz às margens do Velho Chico, largado numa encosta em Pirapora. Ficou de costas para a Companhia de Navegação do São Francisco e de frente para a nascente, aonde nunca foi e nunca irá. Parece até que a posição em que puseram o barco quer passar uma mensagem qualquer, mas, depois de vê-lo bem de perto, torna-se claro que ninguém parou para pensar nisso ao colocá-lo ali. Nem nisso, nem em nada. O São Salvador foi simplesmente abandonado naquele lugar, digno de nada mais além do natural desdém daqueles que abandonam.
O abandono é hoje cena corriqueira ao longo do Rio São Francisco. O antigo “Rio da Unidade Nacional” não existe mais – no seu lugar existe outro rio, como fomos descobrindo à medida que descemos seu antigo trecho navegável. Cada um o percebe de um jeito, mas há traços comuns: o saudosismo de um tempo rico (talvez menos em dinheiro do que em magia e beleza) em que ele era uma grande avenida natural levando e trazendo vida, em todos os aspectos; sua natureza quase humana, agindo diretamente sobre as vidas ribeirinhas; o sonho de vê-lo novamente próspero; um misto de incredulidade, inconformidade e impotência diante de seu atual estado de deterioração.
Mas o rio, embora cheio de areia, não se deixa abater. Reinventa-se constantemente ao longo do tempo e de sua extensão. Na região de Januária, ribeirinhos descrentes das riquezas do Velho Chico – porque crentes naquilo que têm visto – preferem viver de tudo, menos da pesca. Na divisa de Minas com a Bahia, um parque nacional toma a degradação como exemplo e tenta evitar destino semelhante a grutas e cavernas ainda intocadas. Na cidade de Barra, o Bispo Dom Luís justifica sua greve de fome em prol do rio: “Quando a razão cessa, é necessário um gesto de loucura”.
O São Francisco ainda inspira, amedronta, comanda e seduz. É personagem de músicas e poesias. Histórias do Nego d’Água sobrevivem ao tempo – e à pouca profundidade – e são repassadas aos mais novos e aos de fora. Em Xique-Xique, sábios lavradores adiantam suas colheitas se assim o rio – esse oráculo – mandar que façam. E em Petrolina, descobrimos que ele é tato, olfato, audição e paladar, mas não necessariamente visão.
Muitchareia é um breve relato sobre a vida no pequeno trecho do Rio São Francisco que vai de Pirapora a Juazeiro e Petrolina. É um mergulho dentro do rio próprio que cada um dos entrevistados tem dentro de si. Não mais que isso. Porque o Rio São Francisco – assim com letras maiúsculas – é muito maior. Começa inavegável no coração de Minas e, depois de separar Juazeiro de Petrolina, ainda vai unir-se ao mar uns setecentos quilômetros abaixo. Dizem, aliás, que é seu trecho mais bonito, com cânions e corredeiras. Mas nós não sabemos disso. Preferimos não vê-lo e ficar em Petrolina com o Seu Zé Vicente.

1 Comments:
Posso parecer 'coruja" por ser grande amiga da Uliana e do Thiago, mas o filme é lindo e super interessante! Mostra a realidade social, política e econômica da região! Quanto talento e simplicidade! Parabéns!
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