Entrevista de Uliana Duarte para o jornal O Popular
Tudo começou com um convite que fiz ligando em dezembro de 2005 pra um grande amigo meu, pra fazer um vídeo documentário durante uma viagem de ferias. Ele disse que sim e me perguntou pra onde, então eu sem pensar muito, falei: rio São Francisco. E ele topou. Na verdade, o que estava em questão era conhecer o interior do Brasil, lugares bonitos, gente interessante. Um mês depois eu sai de Goiânia, no meu próprio carro, com uma câmera de vídeo digital e dez fitas pra gravar... Cheguei em Brasília, e no dia seguinte, 10 de janeiro, fomos de lá pra Pirapora, Minas Gerais. Não fizemos pesquisa previa, pegamos um mapa e com o tempo de que dispúnhamos, escolhemos esse primeiro destino, que foi Pirapora, pra de lá ir seguindo o rio. Desde criança, cruzava o rio São Francisco de carro com minha família em viagens pro nordeste. Ibotirama, hotel velho Chico, bom Jesus da lapa, queria voltar a esses lugares, descobrir historias...
A principio, o nosso objetivo não era absolutamente fazer um documentário ambiental, eu vinha de um mestrado com concentração em antropologia, e pensava que a região do São Francisco seria perfeita pra registrar formas de expressão, ofícios, saberes. Quando terminamos nossa primeira entrevista com
Cícero, um ex-piloto de barcos a vapor,percebemos que tínhamos ali um conteúdo inegavelmente ambiental, afinal, estávamos na margem de um dos maiores rios do pais e a sua situação chamava a atenção, já que de cara o que nos foi contado pelo Cícero foi que a profundidade do São Francisco não permitia mais a navegação dos barcos a vapor. Ali tivemos um daqueles momentos que o objeto toma vida própria e nos apenas tivemos a sensibilidade de seguir o caminho que o rio indicava. O leito do rio esta consideravelmente modificado, pudemos perceber. Ha lugares onde ele simplesmente secou, ha industrias a cerca de 100 metros da margem, há mortandade de peixes, mas não fomos incisivos na busca pelos problemas ambientais, tudo o que documentamos foi o que encontramos pela frente.
Não tivemos apoio para produzir o filme atE agora. A captação das imagens foi feita por mim e pelo Thiago Poggio, essa foi nossa equipe de gravação. Chegamos a Pirapora dia 10 de janeiro e fia 20 estavamos de volta a Brasília. Eu voltei ao interior da Bahia, Barra, em fevereiro, pra entrevistar Dom LuIs, que na Época da primeira viagem estava em São Paulo celebrando a anual missa dos baianos. Comecei então a edição, no estúdio que fica na casa mesmo do editor e dia 15 de março finalizamos a produção. Pra trilha sonora, amigos músicos também daqui de Goiânia compuseram temas especialmente pro Muitchareia e usamos umas eletrônicas mixadas também por uma amiga espanhola, que vive na Bahia e enviou pra mim.
Eu fui gravando sem pensar em como seria editado. Gravei tudo o que queria e da forma que podia, com equipamento semiprofissional e sem experiência em
cinegrafia, o que só vim estudar formalmente agora em Nova Iorque. Claro que isso acarretou em imperfeições técnicas, que tivemos que enfrentar na edição. Com isso, porem, o vídeo tomou um tom natural, cru, mas bastante poético, bem de acordo com o nosso olhar, e de acordo com o contexto, sabe?
Eu não queria nunca chegar no meio de uma folia de reis, como a que deparamos em Itacarambi, e acender um refletor, por exemplo. Ai a folia foi captada com a luz da rua e da lua, que por sorte, estava cheia, e assim foi, de certa forma, orgânico, durante toda a gravação, sem tripé, sem iluminação artificial...Outra coisa: eu pensava, ainda durante as gravações, em realizar um curta-metragem, mas como resultado final acabamos chegando a um longa e decidi manter o que meu coração pediu, claro que o vídeo seria muito mais "comerciável" se fosse um curta, mas não me arrependo dessa decisão. O Ranulfo Borges classificou Muitchareia como um road movie ambiental. E na verdade foi isso mesmo que fizemos: um passeio, um belo passeio... e vamos fazer muitos mais!









